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Imigração e saúde mental: migrar é cortar ou replantar as raízes?

21 de ago. de 2024
5 min de leitura

Atualizado: 22 de set.

Uma reflexão sobre imigração, pertencimento, identidade e sofrimento psíquico para quem decide viver em outro lugar.


Por Natália Tayota


O sofrimento psíquico do imigrante

O que motiva uma migração pode ter causas diferentes para cada sujeito, mas, para todos, significa uma ruptura, que pode ser boa ou ruim, ou boa e ruim. O sentimento de ambivalência, a divisão, a sensação de ser e estar cindido podem desencadear sofrimento psíquico em quem migra, que se vê diante da dúvida sobre o que fazer com suas raízes. Cortar ou manter suas raízes?


O “desenraizar-se” faz parte de todo processo migratório, que pode acontecer por livre escolha do migrante ou por uma força externa, como no caso de refugiados, exilados ou expatriados. Sendo assim, quando uma raiz é arrancada, ela pode ser plantada de novo em outro lugar?


Em geral, sim, mas vai depender do tipo de planta e da raiz. Algumas plantas se regeneram bem; outras, nem tanto. Para arrancar uma raiz, é preciso ter cuidado, pois, se ela for danificada, isso pode afetar a capacidade da planta de se estabelecer em um novo lugar.


Nesse processo, pode-se descobrir, também, que as raízes estavam apodrecidas. Afinal, não é toda raiz que é saudável. Uma família também pode ser muito disfuncional e causar sofrimento ao sujeito que deseja partir.


Então, como se relacionam a imigração e a saúde mental?


Quem decide partir para viver em outro país é um "ser partido", fragmentado, dividido entre a necessidade de replantar suas raízes ou comprar mudas novas. Mudar é ter novas mudas para plantar. E o que muda quando você se muda?


No livro, “A clínica psicanalítica com migrantes e o sujeito partido”, Liliana Emparan traz essa ideia de divisão que o migrante pode experimentar entre o lugar de origem e o novo lugar, entre a língua materna e a língua adquirida, entre aquilo que deixou para trás e aquilo que tenta construir.


As migrações podem ter motivos diversos. Entretanto, sejam forçadas ou voluntárias, a partida pode causar algum estranhamento no sujeito. Afinal, quando você se muda, você passa a ser aquele que é estranho, o estrangeiro. Como é ser estrangeiro? O que você faz com a estranheza diante dos outros e de você mesmo?


Freud, ao falar sobre o “estranho familiar”, nos permite pensar nessa experiência de estranhamento diante daquilo que, de algum modo, também nos é familiar. Talvez aquilo que estava enraizado, quando é arrancado da terra, cause uma certa estranheza e, ao mesmo tempo, revele algo familiar.

Você já viu de perto como são suas raízes? Uma raiz pode ter várias pontas soltas e desconexas.


pertencimento e imigração
Onde estão suas raízes?

As árvores podem representar muitas coisas, e uma das metáforas possíveis é a da sabedoria e da ancestralidade. Quanto tempo e quantas gerações dura uma árvore? Quais são os frutos que ela dá? O ditado diz que “o fruto não cai muito longe da árvore”.

Ao cortar suas raízes para se mudar de país, o que você vai fazer com elas? Você perde as raízes ou as desloca para o seu novo lugar? Migrar é cortar e descartar as raízes ou replantá-las em outro lugar?


Nossa família é quem nos rega de saberes para podermos florescer. Porém, nem todas as relações têm um bom cultivo da terra e das raízes e, para poder florescer, às vezes é preciso encontrar outro terreno.


Quem migra por vontade própria pode estar buscando manejar as próprias raízes para se replantar na vida. Em outro solo, nasce outra planta, seja com suas próprias raízes, seja a partir de uma nova semente. E isso não acontece sem dor, mesmo para quem tem ótimas relações familiares.


E, para quem não tem, pode ficar a sensação de culpa e remorso, pois o que se espera socialmente é que você ame as suas raízes. Na distância, podem surgir novas relações com essas raízes. Muitas vezes, elas podem até ser melhores.

Com a migração, é possível replantar novas relações com a sua origem.

Quando você se afasta da sua família, você se torna outro? Você é mais livre? Quem é você?


Uma família também pode ser um lugar de aprisionamento e de não florescimento. Migrar pode ser como nascer de novo. E, quando você nasce de novo, pode escolher quem quer ser. Quem você vai ser?


O que se perde numa migração?


Migrar também envolve perder. Mas o que se perde? A perda do laço cultural com o Brasil, da língua materna, a separação da família e dos amigos. Mas, por outro lado, também pode significar perder a vergonha de ser. Isso seria uma boa perda? Muitos imigrantes podem assumir um “novo eu” em outro país. E, nessas condições, se perde ou se ganha um lugar? Toda perda envolve um luto? A maioria, mas nem todas.


Mudar de país pode ter um significado de ascensão social, em busca de melhores condições de vida. Ou, se a condição já for boa, pode ser uma necessidade de experimentar outras formas de vida e de cultura. Uma nova cultura pode gerar choques, dependendo de onde se escolhe viver.


Para alguns imigrantes, o início pode envolver viver sem visto ou permissão, sem documentos, “ser ilegal”, clandestino. Ser um sujeito sem identidade, mesmo que temporariamente, pode trazer consequências psíquicas.




O novo lugar, o desafio da nova língua, o clima diferente, a necessidade de construir novas relações e o sentimento de “ser estranho” em outro país podem resultar em ansiedade, angústia, solidão e sensação de não pertencimento. Muitas vezes, também podem envolver um tipo de luto: perder a fantasia do que você imaginava que seria viver fora. Tudo isso pode ser angustiante na experiência de quem migra.


Brasileiros no exterior: interculturalidade e multiculturalismo 


brasileiros que moram fora do Brasil. viver fora é viver a dualidade?
Ser imigrante é viver em dualidade?

A interculturalidade e o estar dividido entre duas culturas podem ser motivo de conflitos internos. Qual é o lugar da cultura para cada sujeito? O que significa ser brasileiro?


A formação do Brasil é marcada pela mistura de diferentes povos, culturas e histórias. A maioria de nós vem de famílias com trajetórias migratórias, e pode ser que você já tenha vivido conflitos culturais dentro da própria família, pela diversidade de crenças, tradições e saberes. Quando se vive em outro país, o conflito intercultural pode aparecer de forma mais expressiva e se manifestar na negação ou na reafirmação da identidade cultural. Você é “mais brasileiro” quando está fora do Brasil ou nem gosta de ser reconhecido como brasileiro?


Há brasileiros que moram no exterior e não querem conviver com outros brasileiros. Isso seria uma forma de negar as raízes? Já outros fazem questão de manter sua brasilidade viva e procuram se relacionar apenas em núcleos de brasileiros. Às vezes, não é por afinidade, mas simplesmente pelo fato de ser brasileiro. Pode ser que você nem goste de verdade daquela pessoa, mas exista a saudade de falar português, da comida brasileira e dos lugares afetivos que ficaram na memória.


Isso poderia ser uma forma de aplacar a solidão. Entretanto, uma relação que nasce de uma condição situacional também pode gerar o sentimento de não pertencimento, mesmo diante dos “seus”. A nacionalidade é aquilo que nos une? Nem sempre.


Para a psicanálise, o sujeito é marcado por uma divisão que não se resolve simplesmente pela escolha entre um lado e outro. A ambivalência de ser e estar em um lugar que não é o seu de origem pode trazer conflitos em torno da identidade, do pertencimento e da própria relação com suas raízes.


Quem é você fora do Brasil? Qual é o seu lugar? O que te faz sofrer por morar no exterior? Um processo de análise pode ajudar a colocar essas questões em palavras e a compreender os conflitos que atravessam a experiência de ser imigrante. Afinal, talvez encontrar o seu lugar não seja simplesmente escolher entre dois países, duas culturas ou duas identidades.






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 Natália Tayota | Psicanalista © Todos os direitos reservados.

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