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O que as viagens dizem sobre nós e por que viajamos?

15 de ago. de 2024
5 min de leitura

Atualizado: 21 de set.

Uma reflexão sobre desejo, subjetividade e autoconhecimento a partir da experiência de viajar, do encontro com o outro e dos sentidos que atribuímos às nossas viagens.


Por Natália Tayota


psicanálise e viagens: significado de viajar?
Qual o significado de viajar?

Viajar para descobrir novos mundos sempre foi uma necessidade ancestral do ser humano. Desde os primitivos navegadores polinésios na exploração do Pacífico até as Grandes Navegações europeias, viajar sempre significou uma busca por algo a mais. Nesse sentido, para além da exploração territorial, essa busca também estaria relacionada com um achar o seu lugar no mundo? Seja no simbólico ou no real, como as viagens nos afetam e produzem sentido para a nossa existência? Somos a mesma pessoa quando estamos no papel de viajante ou nosso comportamento muda quando estamos viajando?


Uma viagem pode revelar aquilo que somos e aquilo que não somos, o que gostamos e o que não gostamos. Pode ser uma forma de acessar nosso desejo e nos gerar reflexões sobre nosso modo de ser e de socializar. Mas nem tudo o que se descobre numa viagem é bom, mas tudo o que se descobre é sobre a gente. Às vezes, tem coisa que não queremos descobrir, mas descobrimos na intensa experiência da viagem. Porque uma viagem é sempre intensa e cheia de sentidos e significados. O cara chato do passeio, o que ele diz sobre você? E a cidade que você idealizou e não correspondeu às suas expectativas, você idealizou por quê? Se decepcionou? Não era tudo isso que você esperava? O que você projetava viver dessa experiência?


A Viagem como metáfora do desejo. Viajar para se encontrar?


Por que viajamos? A indústria cultural propagou a ideia de que é preciso viajar para se encontrar quando a vida não vai bem ou durante grandes rupturas. Muitos filmes falam disso, como "Comer, rezar e amar" e "Sob o sol da Toscana", que acabam reforçando a associação comum entre viagem e autoconhecimento. As novelas, as redes sociais e outros meios de comunicação também repercutem a ideia de que “você está precisando viajar” diante de situações de estresse, depressão ou do sentimento de que falta algo. Seria mesmo possível “se encontrar” em uma viagem? O simples ato de sair poderia ajudar na cura de um problema e, assim, criar a possibilidade de um encontro consigo mesmo? Como na famosa frase de Saramago: "É preciso sair da ilha para ver a ilha"? Será que nos vemos melhor quando estamos fora do nosso local habitual? Ou nossas questões seguirão viagem conosco até que possam ser elaboradas? O que há nas outras cidades que não há na nossa? Não podemos nos encontrar no nosso próprio lugar de residência?


Preciso me encontrar - Cartola | Liniker e Ilú Obá De Min


A viagem como um tipo de linguagem: o olhar da psicanálise sobre as viagens


Numa viagem, o contato com o outro diz algo sobre nós. Para Lacan, "eu sou o outro", pois só é possível saber de si por meio do outro e do laço social entre as pessoas e os lugares. Viajar também pode ser uma experiência de linguagem, à medida que a interação com os outros produz efeitos de linguagem sobre nós. O contato com aquilo que é diferente, com o estrangeiro, com a estranheza, tudo isso pode nos fazer entrar em contato com aquilo que está encoberto em nós. Nos momentos em que estamos justamente no papel de "descobridor", qual é a nossa reação diante daquilo que nos estranha? O que isso aponta para a nossa subjetividade? Como nos comportamos quando estamos no lugar do outro? A reação ao 'overturismo' diz mais sobre o modo de se comportar dos turistas ou dos moradores das cidades? Você muda de persona quando está viajando? Você sabe se comportar quando está no lugar do outro? Ou, porque é o lugar do outro, tudo é permitido?


O que as viagens significam: o partir, o retorno e a falta


O significado de uma viagem pode ser único para cada sujeito. Por que você escolhe o destino X e não o Y? Quer ir pra Disney? O que isso diz sobre você? Você vai porque realmente quer ou porque todo mundo vai? Qual o lugar que as viagens ocupam para o sujeito? Seria um significante fálico e um jeito de simbolizar a falta? As viagens são a busca de si mesmo ou uma fuga para aquilo que não se quer buscar?


Quase sempre, voltar de uma viagem pode dar tristeza, ou aquela "depressão de fim de férias", porque a vida precisa voltar ao normal. Isso pode ser como reviver algum lugar das férias da infância. Se você viajava quando criança, a tristeza que sentia ao voltar era como um luto, porque significava perder a atenção dos pais e sentir o vazio da rotina, até então ocupado por novas experiências de viagem. As viagens da infância deixam marcas e ajudam a construir nossas memórias de pequenos viajantes. Viajar seria, então, uma forma de reviver a criança que fomos? De querer voltar a ver o mundo com o olhar desbravador e curioso de criança? A vida adulta nos faz perder alguma sensibilidade no olhar porque estamos sempre ocupados. Nas férias, quando você decide se hospedar num hotel all inclusive, é quase como reviver a sensação de ser cuidado, de ser servido, de ter alguém para fazer tudo por você, como sua mãe fazia. Tudo está incluso: o afeto e as sensações de prazer. Quando você é criança, não precisa se preocupar com nada, assim como num hotel all inclusive. Por que estamos sempre querendo reviver experiências prazerosas da infância e agradar nossa criança interior?


Para Lacan, o falo é aquilo que falta e que pode ser substituído por outra coisa que o represente. Desse modo, o que o significante "viagem" cria em termos de sentido para um sujeito diante do discurso do Outro? Poderia ter uma significação fálica na medida em que a simbolização da falta passa a ser articulada e preenchida com elementos que representam poder ou status para o sujeito? O que isso diz sobre nosso desejo de consumo por certos tipos de experiência turística? Seria uma forma de acalentar as nossas feridas infantis?


Em uma passagem de "A Interpretação dos Sonhos" (1900), Freud relata que havia identificado um caso como histeria, mas que não se sentira disposto a tentar seu tratamento psicoterápico e, por isso, mandara o paciente fazer uma viagem marítima. Se até Freud sugeriu uma viagem a um paciente, podemos pensar que viajar pode ter efeitos terapêuticos e auxiliar no processo de análise.


“Eu havia identificado o caso como histeria, mas não me sentira disposto a tentar nele meu tratamento psicoterápico e o mandara fazer uma viagem marítima”. 
Coração e votos de "Bon Voyage!" para uma boa viagem
psicanálise e viagens. o que as viagens dizem sobre nós
O que se busca em uma viagem?

 
 

 Natália Tayota | Psicanalista © Todos os direitos reservados.

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