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O que significa ter saúde mental para a psicanálise?

7 de set. de 2024
4 min de leitura

Atualizado: há 6 dias

Uma reflexão sobre saúde mental, sofrimento, desejo e falta a partir da perspectiva da psicanálise lacaniana.



 o que significa ter saúde mental para a psicanálise
Será que é possível ser "pleno/a"?

Nos últimos tempos, o assunto saúde mental tomou conta dos canais de comunicação e da vida das pessoas, e que bom! Falamos mais sobre sofrimento, ansiedade, depressão, terapia, autocuidado. Mas, quando dizemos que alguém tem “boa saúde mental”, do que estamos falando?


De alguém que não sofre? Que consegue manter uma rotina equilibrada? Que trabalha, se relaciona, produz e consegue seguir a vida sem grandes conflitos?


E se a saúde mental não tivesse exatamente a ver com estar bem o tempo todo?


E afinal, o que significa estar bem?


Para o senso comum, e em algumas abordagens da psicologia, a noção de boa saúde mental costuma incluir ideias como bem-estar, felicidade, qualidade de vida e ausência ou redução de sintomas e transtornos mentais. Ter saúde mental para a psicanálise, especialmente na orientação lacaniana, não é sinônimo de ausência de sofrimento ou de “estar sempre bem”. Não se trata de alcançar uma normalidade ideal ou uma felicidade constante. A questão está mais relacionada à maneira como cada sujeito se relaciona com seu sofrimento, seus conflitos, seus desejos e sua própria história.


Em linhas gerais, podemos pensar que uma relação mais saudável com a própria vida envolve:


  • a capacidade de lidar com os próprios conflitos, sem precisar negá-los completamente;

  • algum grau de flexibilidade psíquica diante das situações da vida;

  • a possibilidade de desejar, sofrer e se responsabilizar pela própria história;

  • e não ficar totalmente aprisionado a sintomas que limitam suas possibilidades de viver.


A teoria de Jacques Lacan enfoca aspectos específicos do funcionamento psíquico e da constituição do sujeito. A partir dessa perspectiva, podemos pensar a saúde mental não como um estado permanente de equilíbrio, mas como uma relação possível com o desejo, a falta, o sofrimento e o inconsciente.


Veja alguns desses aspectos a partir da psicanálise lacaniana:


Os três registros: Real, Simbólico e Imaginário


Lacan propôs os registros do Real, do Simbólico e do Imaginário para pensar o funcionamento psíquico e constituição do sujeito.


  • Real: aquilo que não se deixa apreender completamente pela linguagem e pela simbolização. O encontro com o Real pode estar relacionado à angústia e àquilo que escapa às nossas tentativas de dar sentido à experiência.


  • Simbólico: está relacionado à linguagem, às leis, às regras e às estruturas que organizam nossa relação com o mundo e com os outros.


  • Imaginário: está relacionado às imagens, identificações e formas pelas quais construímos uma representação de nós mesmos e dos outros.


Mais do que pensar em um “equilíbrio” entre esses três registros, a psicanálise lacaniana permite compreender como eles se articulam na experiência de cada sujeito.


A relação com o desejo


Lacan dá um lugar central ao desejo na constituição do sujeito. Na psicanálise, não se trata simplesmente de “saber o que se deseja” ou de realizar todos os desejos, mas de poder construir uma relação própria com aquilo que nos move.


O desejo não é algo que simplesmente dominamos ou controlamos. Ele está relacionado à falta e ao inconsciente e, muitas vezes, não sabemos exatamente o que desejamos. A análise pode abrir espaço para que o sujeito possa se perguntar sobre seu próprio desejo e sobre o lugar que ocupa diante dele.


A posição do sujeito em relação ao Outro


Lacan também destaca a importância da relação do sujeito com o Outro, com “A” maiúsculo. O Outro diz respeito ao campo simbólico da linguagem, das leis e dos significantes que antecedem o sujeito e participam da constituição de sua subjetividade.


Nossa relação com o Outro aparece, por exemplo, na maneira como buscamos reconhecimento, respondemos às expectativas e nos posicionamos diante das demandas que recebemos. A questão não é simplesmente ser submisso ou rebelde, mas poder construir uma posição própria diante dessas demandas.


O reconhecimento da falta


Lacan introduz a falta como elemento fundamental da experiência humana. Nesse sentido, ter saúde mental não significa eliminar a falta ou preencher completamente aquilo que sentimos faltar.


A falta faz parte da condição humana. A questão é como cada sujeito se posiciona diante dela, dos limites e daquilo que não pode ser completamente preenchido. Muitas vezes, é justamente a tentativa de eliminar toda falta que pode produzir sofrimento.


O processo de análise



Na psicanálise lacaniana, a análise não funciona como um tratamento que busca simplesmente devolver o sujeito a um estado anterior de “normalidade”. Trata-se de um processo no qual o sujeito pode falar sobre aquilo que o atravessa, escutar seus próprios significantes e construir novas possibilidades de relação com sua história, seu desejo e seus sintomas.


Por isso, não existe um “manual” de saúde mental na psicanálise. A questão não é alcançar um estado permanente de bem-estar, mas poder construir uma relação mais própria com aquilo que constitui cada sujeito.


Assim, na psicanálise lacaniana, falar em saúde mental exige ir além da ideia de estar bem o tempo todo. A questão passa pela relação do sujeito com o desejo, a falta, o sofrimento, o sintoma, o inconsciente e o Outro. É uma perspectiva que não reduz a saúde mental a um estado visível de felicidade ou adaptação, mas considera a complexidade da experiência subjetiva.


Saúde mental e sociedade




Para a sociedade, a ideia de boa saúde mental muitas vezes aparece associada à capacidade de funcionar no cotidiano, manter relações, trabalhar, estudar e lidar com as demandas da vida. Essas referências podem ser importantes, mas também podem produzir uma visão idealizada de saúde mental quando transformadas em exigências de produtividade, felicidade constante ou adequação.


A psicanálise lacaniana não tem como objetivo simplesmente adaptar o sujeito às normas sociais. Seu foco está na relação do sujeito com o inconsciente, com o desejo e com a própria história. Nesse sentido, a pergunta não é apenas “como voltar a estar bem?”, mas também “o que esse sofrimento está dizendo sobre mim?”


Será que ter saúde mental significa conseguir se adaptar bem à vida que temos ou conseguir construir uma relação possível com aquilo que, em nós, nunca estará completamente resolvido?


Cada abordagem terapêutica oferece perspectivas diferentes para compreender e cuidar do sofrimento psíquico. Se você deseja começar seu processo analítico, envie uma mensagem pelo WhatsApp 11 99782-9459.

 
 

 Natália Tayota | Psicanalista © Todos os direitos reservados.

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