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Identidade e diagnóstico psiquiátrico: você não é seu diagnóstico!

17 de ago. de 2024
3 min de leitura

Atualizado: 21 de set.

Entre o que dizem que você é e aquilo que você pode descobrir sobre si.


Por Natália Tayota


diagnóstico e identidade
Quando deixamos de perguntar “o que eu tenho?” e começamos a perguntar “quem eu sou?”.

“- Eu tenho TOC! Sou depressivo. Sou ansioso. Fui diagnosticado como borderline. Tenho síndrome de Burnout, síndrome do pânico, de Cinderela, da impostora, de Peter Pan”. Síndrome disso e daquilo, é tanta síndrome e transtorno pra falar do que a gente é, não é? Mas você não é nada disso! Estar com uma doença ou mal-estar é uma condição, e isso não faz parte, por si só, do campo do Ser. Ainda que existam diagnósticos com condições permanentes, ser é muito mais do que isso. Uma condição pode até nos acompanhar por muito tempo, mas ela não dá conta de dizer quem somos. Qual seria, então, a relação entre identidade e diagnóstico psiquiátrico?


Receber um diagnóstico psiquiátrico é mais comum do que se imagina, mas existem pessoas que tendem a se apropriar da sua condição e passam a usar o “ser” no lugar do “ter” ou do “estar”. Não entendo muito bem por que elas usam o ser pra falar sobre a sua doença; o certo não seria dizer estou com tal coisa? Estou com depressão, no lugar de tenho depressão ou sou depressivo? Todo mundo sabe que, no português, os verbos ser e estar têm sentidos diferentes. Dizer que se é alguma coisa seria desacreditar da cura? Porque o que se é é mais difícil de mudar do que aquilo que se está ou que se tem, pois a natureza desses verbos remete a uma condição temporária, não inerente. Ser é outra coisa!


Às vezes, é difícil dizer quem se é! Então, acaba sendo muito mais fácil definir-se por um estado. O difícil mesmo é tentar saber a origem das síndromes e transtornos para responder à clássica e profunda pergunta: “quem eu sou?” Parece simples, oras, eu sou o que sou! Mas o que eu sou? E se, por acaso, alguma coisa não vai bem com o que a gente é, então somos aquilo que dizem sobre o nosso estado mental atual? A confusão, o conflito, a contradição, o desencaixe. Como foi que eu me encaixei nesse diagnóstico? Por que deixei um diagnóstico dizer o que eu sou? Por que eu sou isso? Pensar e ser quem se é dá muito trabalho. Muitas vezes, a gente passa a vida inteira achando que é uma coisa que não é. Então, a gente se apoia no que os outros dizem sobre quem somos. E é claro que o outro é importante pra gente se descobrir, afinal, “eu sou o outro”, como disse Lacan. Só que até que ponto esse outro é você?


A psicanálise e a identidade além do diagnóstico psiquiátrico


psicanálise e diagnóstico
Ser ou ter um diagnóstico? Você é ser humano além do seu diagnóstico.

O trabalho psicanalítico é justamente sobre o “des-ser”, o deixar de ser, o descer do lugar do Outro, do lugar onde a gente se sentou porque achou que era nosso. Sentar em cima de um diagnóstico e do que falam que a gente é é abafar o que a gente é, não é?! O objetivo de uma análise é desfazer imagens e chegar onde não se pensa, porque é ali que pode surgir algo do que se é. Por que você achou que era aquilo que te falaram que você era? Chegar a esse “isso” é um processo, uma investigação, um jogo de quebra-cabeça, que envolve vasculhar a memória e construir narrativas sobre um novo jeito de ser. Na busca, você até pode descobrir que era isso mesmo ou que não era nada disso.


Por trás de todo diagnóstico psiquiátrico existe uma pessoa, um sujeito desejante. Não é uma prescrição que te deram que vai dizer quem você é. Se alguém te prescrever algo para o que você tem, então você passa a ser aquilo? Não! Às vezes, acontece de o desejo desaparecer, então a gente busca alguém que prescreva, que dê uma ordem na desordem e no caos em que a gente se enfiou. Mas, se a gente não se engajar ativamente, a organização não se faz sozinha; sem o desejo, não há análise. Investigar a causa e conseguir renomear o diagnóstico, com suas próprias palavras, muda todo o quadro do sintoma, para que você possa descobrir o que o sustenta e por que ele apareceu.





Você quer se descobrir pra além do seu diagnóstico?

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 Natália Tayota | Psicanalista © Todos os direitos reservados.

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