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Workaholic ou worklover: qual o limite do trabalho?

16 de ago. de 2024
5 min de leitura

Atualizado: 21 de set.

Workaholic ou worklover? Uma reflexão sobre desejo, propósito, produtividade e os limites entre amar o trabalho e viver para trabalhar.


Por Natália Tayota


saúde mental no trabalho
O que está por trás da nossa relação com o trabalho?

Amor e obsessão. Sentimentos tão opostos que se relacionam e se confundem. A obsessão é um tipo de amor meio torto? E o amor, quando vira obsessão, é o quê?


No mundo corporativo, a cultura do vício em trabalho é reforçada por discursos de RH que tornam o funcionário um “lover” da marca. O employer branding está meio na moda, e várias marcas têm adicionado o “lovers” ao final de seu nome para se comunicar com clientes internos e externos. Mas será que é preciso amar a marca para ser feliz no trabalho? O que as empresas e o capitalismo ganham com esse amor pelo trabalho? E quando a gente descobre que “não era amor, era cilada”?


Aliás, quem é que hoje ama o que faz? O que mais tem é gente infeliz no trabalho! Por que será que tem tanta gente em transição? Se o trabalho é motivo de tanta angústia e sofrimento psíquico, principalmente entre as gerações Y e Z, será que a gente está escolhendo mal ou são os empregos que estão ruins mesmo? Qual a diferença entre ser viciado em trabalho e amar o que faz?


O que significa ser workaholic


O que é ser um workaholic? É alguém que está a serviço do serviço, servindo a um gozo que faz sofrer, que faz adiar o prazer. O workaholic é o cara que te manda e-mail de madrugada ou em pleno domingo e espera que você responda no tempo dele. Se ele está trabalhando até essa hora, por que você não está? Aí você pensa: esse cara não tem vida? Ele tem. A vida é o trabalho.


Mesmo que ele nem goste muito do que faz, sente-se obrigado a cumprir as obrigações que o trabalho lhe impõe, porque, afinal, é o seu trabalho. Mesmo meio sem sentido, é o que paga as contas. Para o workaholic, não basta que ele sofra; os que estão ao lado também têm que sofrer. É muito difícil trabalhar com um workaholic. E, se deixar, a gente também sofre e trabalha para responder à demanda do outro, no WhatsApp e na vida.


Quais são os limites saudáveis entre o trabalho e a vida? É certo que o trabalho é uma condição da existência da vida material, mas será que é preciso trabalhar tanto? Trabalhar só para consumir gera felicidade? Existe felicidade no trabalho? A gente precisa sofrer no trabalho? Ou trabalho bom é o que não dá trabalho?


diferença entre workaholic e worklover

“Ame o que você faz e não precisará trabalhar um dia sequer na vida”! Será que existe a plenitude do trabalho feliz? E mesmo quem ama o trabalho, ama todos os dias? E quem não ama e precisa trabalhar, faz o quê? É comum que as empresas propaguem a ideia do “trabalhe com propósito”. O amor e o propósito são aquilo que nos move, não são? Quanto vale o seu amor? Se o trabalhador vê sentido nisso, tudo bem! Mas, se não vê, o sujeito sofre, sente angústia, ansiedade e fica improdutivo. Dá um vazio na vida!


É fato que o trabalho dá sentido à existência, mas, quando o emprego é só sobrevivência, como faz para dar sentido?


A realidade da maioria dos empregos é triste, até nas empresas que todo mundo quer trabalhar. Nas “melhores empresas para trabalhar”, tem muito trabalho, muito mesmo! Em geral, as equipes são enxutas e o multitasking é a habilidade da vez. Com a sobrecarga de tarefas, muitas vezes nem dá tempo de pensar, mas responder à demanda de quem te emprega parece ser um pouco da sua obrigação.

Em muitos casos, fazer banco de horas já está imputado à função. Aí fica difícil saber se “ser workaholic” é um imperativo do mercado ou se a pessoa está fugindo das próprias questões e se afundando no trabalho.


sofrimento psíquico no trabalho
Excesso de trabalho

Tem gente que acha que ser workaholic é uma qualidade, uma espécie de elogio. A pessoa fala que é workaholic como se fosse bom se equilibrar na vida para dar conta de tudo. E esse “dar conta de tudo” pode virar palpitação, respiração pesada, problema no coração...

Faz parte da nossa tradição filosófica cristã a ideia de que o trabalho traz dignidade à existência. Porém, é justamente daí que também nasce a cultura da produtividade e da performance. Eu sou digno de existir? O que estou produzindo? Existe um excesso de produção que pede cada vez mais produção. É preciso produzir! Produzir o quê?


O que é que se produz quando o trabalho é alienante? Aliena-ação?


Um trabalho que paga as contas, mas não gera prazer, gera o quê? Um monte de coisas. Gera tédio, bode, preguiça, falta de vontade de levantar da cama e falta de pertencimento, que é justamente aquilo que as empresas tanto lutam para conquistar nas campanhas de #orgulhoempertencer. Pertencer parece só discurso de firma, mas é real. Sentir que pertence traz significados e sentidos para a vida.


Então, quem trabalha se sentindo pertencido — pertencido, sobretudo, a si mesmo — não sofre com as extenuantes rotinas de trabalho? O amor ao trabalho estaria restrito apenas às profissões vistas como essenciais ou ligadas ao cuidado? Quando a pessoa acha que tem a missão de salvar a vida do outro, é diferente de quem só quer bater a meta de vendas para ganhar o bônus? Ser um worklover é conseguir sentir prazer no trabalho e, às vezes, também abrir concessões para uma falta de limites? Em nome do amor, tudo se supera? Então, nesse caso, seria possível conceder-se pelo amor à profissão e não por obrigação, como os workaholics?


Ter um propósito é o mantra do pessoal do RH. Às vezes, o propósito da empresa se torna o propósito de vida de quem a lidera. Acontece! Mas, para quem não tem propósito, qualquer propósito serve? Que seja a atividade-fim da empresa que o emprega.


Propósito é algo que se cria ou já nasce sozinho? O que seria o propósito? Seria essa pergunta — difícil de responder — a maior promotora de sofrimento psíquico da atualidade? Qual é o propósito do meu trabalho? O propósito pode ser funcional e situacional, pode não ter propósito nenhum ou pode significar a razão de existir de alguém.

A maior diferença entre o worklover e o workaholic seria o orgulho de ser quem se é?

O que é worklover e como se diferencia


saúde mental no trabalho

O worklover se sente orgulhoso do que faz e, por isso, faz a mais. Já o workaholic faz mais porque acha que tem que fazer? Como todo vício, há um ciclo de repetições não pensadas. O workaholic se sente impelido a responder às obrigações que ele mesmo cria para si. Os rituais obsessivos no trabalho atrapalham não só a convivência profissional, mas também a vida pessoal.


E, para piorar, os novos métodos de gestão favorecem ainda mais nossas tendências neurótico-obsessivas. É o tempo dos post-its, dos modelos, dos rituais. Uma empresa se faz de ritos, mas nós precisamos desses ritos?


Parece que tudo isso está na escolha profissional. Os que amam escolheram melhor porque bancaram o seu desejo. Já os que escolheram só por escolher estão aí na sofrência, buscando o que desejam para poder encontrar o tão falado propósito no trabalho.


Na hora de escolher nosso trabalho, mais vale nosso desejo ou as tendências de mercado? Talvez as tendências sejam só tendências. Não dá para saber. O que dá para saber é que o desejo não realizado pode voltar para o corpo em forma de sintoma. Então, por quanto tempo você vai continuar negociando com seus desejos?





 
 

 Natália Tayota | Psicanalista © Todos os direitos reservados.

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